Funeral

IV · Paulo José Miranda · Cadáver Esquisito Volume Um

Estava um dia propício a esquecer alguém. A campa aberta, ferida da terra, do chão, ferida aberta a mostrar as entranhas do mundo e do nosso destino. E, junto a ela, meia dúzia de pessoas imóveis olhavam os coveiros com suas longas capas pretas, por onde escorria abundantemente a água, pensando cada uma delas para si mesma em como a vida é difícil. A chuva caía forte sobre a terra e sobre os ciprestes, sobre o mármore das campas e as poucas pessoas que seguravam os guarda-chuvas com os pés enlameados, os rostos gélidos e o cano das calças encharcadas. As pás começaram a fazer-se ouvir, misturando nos ouvidos humanos as pedras, a terra, a chuva sobre a madeira envernizada do caixão, que já parecia em paz no fundo da cova, no fundo do nada ou do início dele.

O texto integral vive na garrafa e no livro da edição. Aqui fica o rótulo, o autor e o lugar desta história dentro do cadáver.

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Garrafa Cadáver Esquisito com o rótulo Funeral, de Paulo José Miranda